segunda-feira, 15 de março de 2010

Homenagem a Quebra-Canela



Essência


Águ,

Águ-l mar.

Ora ku speransa, ora romantiku,

Ora na guerra, ora na paz, ora di luto,

Ora balenti, ora kobardu,

Ora idukadu, ora malkriadu,

Ora harmonioso, ora monótono,

Ora fartu, ora ku fomi…

Ma nunka bu ka ta dexa di ser,

Águ,

Águ-l mar.

Por Ivan Santos

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sensacionalismos



O nosso primeiro-ministro afirma com todas as letras, alto e bom som, que a problemática da onda de violência que o país atravessa, reside no simples facto de a nossa comunicação social ser sensacionalista. Ou seja não passam de meros casos sensacionalistas que passam na TV noticias que servem para vender e que geram avultados lucros às nossas grandes cadeias de televisão, rádio e internet.

Entretanto o Governo reúne-se com instituições públicas e privadas para discutir a violência. O Governo promete reforçar a legislação na matéria e procurar novas formas de contornar a situação.

Alguns dias depois, o Ministério de Segurança Interna, anuncia novas medidas para combate à violência e criminalidade. As medidas passam desde o reforço e capacitação da Policia Nacional, como por exemplo: 118 novos efectivos, reforço de meios para o combate à proliferação de armas ligeiras, instalação de scanners móveis e fixos para a fiscalização e controlo de armas nos portos e aeroportos (entre outras); assim como medidas operacionais, adopção de um Plano Operacional Nacional, Planos Especiais para os Comandos Regionais, etc, etc…

Hoje, anuncia-se que a Policia Militar volta às ruas, com o objectivo de colaborar no Plano de Combate à violência e criminalidade.

Perguntas: Tudo isto é porque a nossa imprensa é sensacionalista? Tudo isto é porque o estado actual da problemática da violência está pior do que pensávamos? Ou ainda, tudo isto é porque estamos a um ano das eleições e o governo quer mostrar que cumpriu no seu dever?

Homenagem às mulheres



Mulheres e flores do campo


Mulheres
São quais flores do campo
Que solitárias embelezam o prado
Enquanto são pisoteadas pelos insensatos.

As flores do campo trazem uma beleza sem par
Indecifráveis são suas essências
E as mulheres incompreendidas
Em suas ricas consistências.

Mulheres e flores do campo
Estão além da compreensão
Do gênero homem, preocupado, aprisionado
No poder econômico e de mando.


As flores do campo por mais que as arranquem;
As pisoteiam, sempre voltam a florescer
Suas raízes são profundas
E suas sementes fecundas.

Nas mulheres,
Fecunda é a sabedoria;
Profundos são seus sentimentos;
Por isso, com mulher não se brinca.

Mulher, se ama
Mulher deve ser adorada e respeitada
Pois nela há o indecifrável
Dom do amor e da vida.


Por Davi Roballlo

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sodade


Acabo de assistir a um filme-documentário intitulado “São Tomé, Os Últimos Contratados”, produção e realização de Leão Lopes.
Confesso que não sabia nem da existência do documentário. Através de minhas visitas diárias pela blogosfera cabo-verdiana soube pelo blog Caboverdiano que o mesmo iria se estrear hoje (19/02) e no dia 26/02 em São Vicente.

Despertou logo minha curiosidade porque nunca tinha sequer ouvido falar de um trabalho, de uma produção que retratasse esse capítulo da nossa história, aliás dos dois países.
Estudei no Brasil cinco anos e todo esse tempo compartilhei vivências e momentos com colegas santomenses, “os santolas”. Todos alegres, amantes da vida, nunca estavam tristes. Até para contar histórias tristes das quais lhes eram passadas por seus familiares descendentes, sobre a viagem para São Tomé, o trabalho na roça, a vontade de pelo menos rever os entes queridos que teriam ficado para trás, as promessas de retorno, enfim.

Sobre o documentário, o próprio Leão Lopes no final disse “está tudo dito”.
Emotivo, triste, de dar arrepios. Foi hilariante a cena das batucadeiras. Presença viva da cultura cabo-verdiana. O próprio não conseguiu conter a emoção.
Durante o filme parecia que estava numa sala de mórbidos escutando as vozes de lamentação sussurrando todo o sofrimento que haviam passado.
Alguém disse, falar da história dos contratados, da emigração cabo-verdiana para São Tomé e Príncipe é talvez falar do capítulo mais triste, mais mórbido da história de Cabo Verde.

Hoje existem cerca de 34530 cabo-verdianos ou descendentes de cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe um país de 160.000 habitantes.
Pelo documentário também fica-se com a impressão que os cabo-verdianos ou os descendentes já não almejam tanto o retorno á sua terra natal. Querem antes de mais uma vida digna, uma vida de reconhecimento pelo que já passaram, sentem-se também santomenses e querem contribuir de alguma forma para o desenvolvimento económico-social do país. Não querem ajudas para voltar, querem ajudas para que possam construir uma vida, para que seus filhos tenham oportunidades de estudar, de trabalhar, ter acesso à saúde, segurança e não sejam eternos sobreviventes.

Só me resta dizer obrigado ao Leão Lopes pela grandiosidade do documentário e ao CaboVerdiano pela dica.

Diário de Viagem (II)



El Salvador, 8 de Setembro de 2009 – 21:03 hora local

Depois de um dia cheio de actividades, jogos e reflexões pessoais, estamos neste momento numa Tertulia (uma roda de conversa). A convidada de hoje é Deyse Cheyene da IMU (Instituto de las Mujeres). Uma salvadorenha ex-combatente da guerra civil nacional dos anos 80. Veio nos transmitir um pouco de sua experiência como defensora dos direitos humanos no geral e em particular das mulheres, em diferentes perspectivas e contextos. Pré golpe de estado, durante a guerra civil, pós-guerra civil, ditadura e democratização. Também irá nos fazer um balanço dos 100 dias do Novo Governo. Vamos isso? Diz ela:
“Durante a guerra civil, a ditadura, o papel dos movimentos são vistos de alguma forma como aliados. Alias fortes aliados. Todos lutam por um objectivo. O movimento feminista não fica atrás neste intuito. É hora de unir forças e combater uma ditadura fascista. Contudo o que acontece ao alcançar o objectivo final é o que acontece quase sempre em lutas revolucionárias: os movimentos sociais, todos sem excepção são simplesmente esquecidos. Me deparo aqui por minutos, tentando encontrar uma explicação para tal, mas não tenho sucesso. A única que me vem à cabeça é esta: simplesmente esquecidos.
O movimento feminista de repente, se vê (particularmente), sem rumo, sem direcção, sem uma bússola. E agora!!?? A participação na guerra considerada notória não é reconhecida. O sentimento é de que depois de 12 anos de luta, combateram por direitos de outrem e não do conjunto ou quiçá de si próprios.
Daí a luta que terminara teria que recomeçar, agora procurando seus próprios direitos e sair do plano secundário (nem isso), plano de esquecimento.
O fim da guerra sempre vem acompanhado de, digamos, vantagens e desvantagens. Prós e Contras. Esperança, liberdade, receio, angustia, etc. Uma mescla de sentimentos.
El Salvador passa a ser governado por uma ideologia de ultra-direita, burguesia emergente. Na linha do que está acontecendo no mundo na época (década de 90), o governo exerce uma politica neoliberal forte, com direito a “apadrinhagem” do Banco Mundial. Considera esta instituição que o exemplo de El Salvador devia ser seguido por todos os países da América Latina.
Nisto, como a própria história mostrou, Salvador atinge índices de pobreza extremamente baixos, níveis preocupantes de discriminação social, aumento do narcotráfico, aumento da violência, chegando a ser uma das cidades mais violentas da América Central, abandono escolar, prostituição. Todos esses índices têm maior incidência sobre as mulheres do que nos homens.”

A situação melhorou bastante, consideravelmente, considera Deyse. Tudo fruto de um trabalho implementado de forma estratégica e organizada. Sessões de auto-estima, de mudança de paradigma entre outros, contribuíram para tal.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Suchitoto, El Salvador (I)





Suchitoto é um município situado a oeste de San Salvador, sua extensão territorial é de 329,2 km2, sua altitude sobre o nível do mar é de 388m.
Concentra 28 cantões e 77 comunidades, a população urbana é de 7.000 e a rural de 20.000. É um município com muita identidade marcada pela memória de guerra civil ocorrida nos anos 80. Durante o conflito armado quase se transformou numa cidade-fantasma, devido aos bombardeamentos do exército que dizimaram muitos civis.
Depois dos acordos de paz, o município implementou acções com a vista à reconstrução, principalmente em infra-estruturas sociais básicas.
Conta com um Plano de Ordenamento Territorial, um Plano de Turismo, Conservação e Restauração da cidade e um Plano de Tratamento Integral de Esgotos.
O esforço e consequentemente o êxito do município resultam de uma provisão e visão clara da participação activa da população local. As principais actividades económicas do município: agropecuária, turismo, pesca artesanal, comércio.


Fotos: Ivan Santos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


"A Liberdade de Imprensa sobrepõe-se ao Segredo de Justiça"

(um jornalista da nossa praça)

Comentário: O que acham!?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Brasil rumo ao Hexa (?)



Em ano de Copa do Mundo de Futebol, o presidente brasileiro Lula da Silva juntamente com a Associação dos Campeões Mundiais do Brasil, negociaram “presentear” jogadores que estiveram nas cinco conquistas brasileiras de campeão mundial. A saber: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. O valor pode chegar aos 465 mil reais.
Boa iniciativa até para garantir a aposentadoria de alguns jogadores. Mas de qualquer forma fica a pergunta, ou melhor algumas perguntas.

E os praticantes de outros desportos, não merecem tal “prémio”? E porque esta iniciativa surge em ano de Copa? Onde vai sair o dinheiro para tal? Dos cofres públicos?

Homenagem a Haiti

Para Didier Dominique e o povo do Haiti, e para meu pai, Roland Klueger, que faria 88 anos hoje.


Era uma vez um rei e um menino. Fico pensando se há alguma palavra que signifique, ao mesmo tempo, exaustão, terror, desespero e desesperança, tudo isto somado e elevado a décima potência, mas não encontro tal palavra. Só que era bem assim que estava o menino: tinha dois anos, encolhia-se de olhos catatônicos no vazio de uma calçada logo depois do terremoto do Haiti, e apareceu na televisão. Eram tantos em desespero em torno dele, eram tantos... Eram tantos os mortos em torno dele, eram tantos... Quem conseguiria prestar atenção em mais aquele menino dentro de tanta desgraça, a não ser aquele olho malicioso de uma televisão, que pegou o menino e o jogou no meu colo, sem que eu so ubesse o que fazer com ele?

Era uma vez um rei e um menino. O rei era pura saúde, garbo e fidalguia: vestido com trajes tribais, tinha no rosto e no corpo os mesmo desenhos em branco, preto e vermelho que também estavam no escudo de couro que segurava na mão esquerda, pois na direita segurava a lança segura e certeira que o tornara rei tamanha a sua perícia ao caçar o leão. Ele era grande e espadaúdo, mas maior ainda era a sua fama, pois não só ao leão enfrentava: quando seu povo tinha fome, ele afrontava até os grandes elefantes, e todos viviam felizes no seu reino, bem alimentados e saudáveis, e o rei era feliz também.

Certo do poder da sua felicidade e da sua lança, o rei nunca entendeu como lhe caíra em cima aquela rede que o despojara do seu escudo, da sua lança, da sua força e da sua liberdade – como tantos outros da sua terra, teve que se curvar à chibata do traficante, aceitar a gargantilha e as algemas de ferro, resistir à longa caminhada da coleante corrente feita de gente e de ferros, viver a aviltância do navio negreiro.

A saúde antiga deu-lhe forças para chegar vivo àquela terra de degredo, de escravidão, e cruéis homens brancos de outra fala, à força de chicote, subjugaram-no e ele teve que se curvar, sem lança, sem pintura, sem escudo, e cultivar a cana que produzia o açúcar, o rum e a riqueza daqueles usurpadores da sua liberdade. Nunca mais ele foi feliz; nunca mais soube do seu povo e seu povo nunca mais soube dele, e só o que havia de belo era o mar daquela terra, todo verde, azul e transparente. Houve, também, uma mulher que reconheceu nele a fidalguia conspurcada, e antes de morrer prematuramente, o rei teve um filho, negro e lindo como ele, e que na verdade era um príncipe – mas foi um príncipe que nunca teve uma lança e que não conheceu os desenhos e as cores tribais – ao invés de leões, só houve para ele o látego do algoz.

Outros príncipes foram gerados na descendência do rei, naquela terra que parecia incrustada num mar de turmalinas, e todos tiveram a vida miserável de escravo, enquanto seus senhores tinham as vidas nababescas dos poderosos.

Um dia, já não dava mais de suportar. Eles eram mais de 500.000 negros, e os senhores eram 32.000, certos que a força do látego manteria aquela situação indefinidamente. E junto com os demais escravos os descendentes do rei lutaram e lutaram e venceram – desde 1791 a 1803 – nesse último ano venceram até o exército que Napoleão Bonaparte mandara da França. E conquistaram a liberdade!

O Haiti foi o primeiro país da América dita Latina a ser livre, a fazer a independência, isto lá em 1804, antes de todos os demais. É de se imaginar o frio que correu na espinha de tantos outros colonizadores brancos: uma república, e de negros? E se a coisa pega? Olha que escravo está tudo cheio por esta América de meu Deus! Que se faz, ai ai ai?

De modo geral, o que se podia fazer eram independências rápidas, feitas por brancos (e elas aconteceram uma depois da outra) e muita matança de negros, para evitar que a coisa trágica se repetisse e sujasse o bom nome da dita civilização européia! Sei bem como foi tal matança no Brasil: foi na guerra do Paraguai, foi na revolução Farroupilha... – não estou inteirada de como foi nos outros países, mas que a matança foi grande, lá isso foi. E a “civilização” branca quase pode respirar, aliviada – só que havia aquele pequeno país, aquele maldito pequeno país lá incrustado naquele mar de ametista, o tal do Haiti, que era um país de negros – e nunca que a tal “civilização” branca poderia deixar aquilo là ¡ florescer de verdade – era afronta demasiada.

E nos dois últimos séculos o Haiti sofreu tudo o que é possível sofrer-se para que sua crista se quebrasse: invasões, ditaduras, golpes de Estado, o bedelho dos brancos sempre indo lá e tentando botar tudo a perder, mas a valentia daquele povo parecia indomável, e o Haiti, mesmo não conseguindo florescer como deveria, era exportador de café, de arroz, era o maior produtor de açúcar do mundo, era um país que tinha seus filhos bem alimentados a arroz, a banana, os porcos abundavam e produziam pratos deliciosos, acompanhados de banana frita, iguaria tão caribenha...

Foi agora, agorinha, no tempo da violência do neoliberalismo, o que nos leva a 1980, que o complô dos brancos resolveu que já não dava mais, que era muito absurdo em plena América ver um país de negros sobrevivendo e sobrevivendo impunemente... Então foi programada a tomada definitiva do Haiti. Foi daquelas coisas mais malévolas que as mentes doentias podem programar visando lucro: aos poucos, introduziram-se as pragas necessárias na ilha incrustada num mar de safira, e morreram todos os porcos, e depois todo o arroz, e depois toda a banana, e depois veio a praga do café.. . Aqueles negros corajosos não sobreviveriam, ah! La isso não poderia acontecer! Viveriam apenas para voltar à condição de escravos, e igualzinho como os europeus, em 1885, no Tratado de Berlim, dividiram o mapa da África à régua, causando as milhares de desgraças que estão acontecendo até hoje, os brancos do neoliberalismo pegaram o território do Haiti e o dividiram em 18 futuras zonas francas onde não haveria lei, onde o Capital imperaria, e onde, as pessoas tão famintas que estavam assando biscoitos de argila para poderem ter algo no estômago trabalhariam, de novo, em regime de escravidão. Pode parecer que tal coisa é distante de nós, mas não é. O próprio vice-presidente do Brasil, José Alencar, é alguém tão interessado no assunto que até mandou seu filho para lá para cuidar dos seus futuros interesses imperialistas. E o execrável outro dia ainda saiu do hospital, depois de mais algumas cirurgias, sorrindo para as câmaras das televisões e declarando que poderia perder tudo na vida, menos a honra. Que honra pode ter um homem assim?

(Não consigo me furtar de contar de que forma a nefanda honra do vice-presidente atingiu diretamente minha família, recentemente. Numa só tarde, uma das empresas dele, aqui na minha cidade de Blumenau/SC/Brasil, a Coteminas, demitiu 600 empregados, assim sem mais nem menos. Três primos meus, lutadores pais de famílias, perderam o emprego sem entenderem muito bem por quê – o porquê é fácil: nas novas fábricas que o “honrado” vice-presidente anda montando lá nas zonas francas do Haiti, os novos empregados trabalharão pela décima parte do salário que os meus primos ganhavam – e o salário dos meus primos já não era grande coisa.)

Bem, então tínhamos um Haiti em petição de miséria, e daí veio o terremoto. Que poderia ter acontecido de melhor para o Capitalismo e o Imperialismo dos EUA? Até o palácio presidencial do governo títere ruiu – daqui para a frente é apenas tomar posse – já não há barreiras. Ao invés de ajuda humanitária (que eles não deram nem aos flagelados do furacão Katrina, em seu próprio território) os Estados Unidos estão, descaradamente, diante de todo o mundo, fazendo a ocupação militar do Haiti com o seu exército, e tudo parece bonitinho, com a Hilary indo lá para ver como é que estão ajudando... ajudando uma ova! Alguém já viu os Estados Unidos ajudar alguém de verdade?

Não deixo de louvar as tantas e tantas equipes de tantos e tantos países que lá estão, realmente levando ajuda humanitária para aquele povo quase que nas vascas da agonia – mas a semvergonhice do Capital está lá, também, sorrindo de felicidade com sua cara de caveira.

E então o olho de uma televisão espia lá aquele menino de dois anos arrasado pela exaustão, pelo terror e pelo desespero, encolhido num vazio de uma calçada, e o joga brutalmente no meu colo – e quando tento acalmá-lo acolhendo-o junto do meu coração, ele me conta do rei, seu antepassado – aquele menino moído pelo Capital e pelo terremoto é nada mais nada menos que um príncipe, e seu antepassado que foi rei e livre caçava leões e elefantes e alimentava um povo – o menino sabia, a família sempre contara adiante o seu segredo.

Céus, céus, o que fizeram com as gentes livres da África, que quiseram apenas continuar vivendo com dignidade naquela ilha de onde já não podiam sair? Quem vai cuidar daquele menino antes que ele retorne à condição de escravo de onde seus antepassados tanto tentaram sair?

Eu choro, Haiti, choro por ti, e por teu menino, e por aquele rei. Não sei fazer outra coisa além de chorar.


Blumenau, 17 de janeiro de 2010.

Urda Alice Klueger (Escritora e historiadora)


Cometário: um minuto de silêncio em memória às vitimas

Recebido via email

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Diário de Viagem (I)


Setembro de 2009 fiz uma viagem a El Salvador, América Central, para participar numa formação "Escuela Metodologica de Masculinidades" Equinnocio 2009.
O programa tem por interesse abordar homens que, pela sua posição e poder organizacional, são tidos como agentes-culturais na formulação de políticas, na mudança de práticas e atitudes e na realização de projectos, com vista atingir a equidade de género e a prevenção da violência. Pretende assim, gerar modificações nas práticas quotidianas de homens-líderes de comunidades, organizações não-governamentais e entidades estatais.
Toda a metodologia, todo o processo em si, gira em torno de uma lógica quotidiana, vivencial, pessoal. A metodologia passa sim por um conceito racional, mas este terá de ser acompanhado, terá de caminhar juntamente com o conceito espiritual. Constituiu um momento para a mudança pessoal, para uma nova abordagem pessoal, para em seguida contribuir para um ganho profissional. Ou seja, a partir desta experiência conseguimos identificar, reconhecer marcas do modelo hegemónico presentes em nós. Isto já é um grande avanço na luta, na promoção da igualdade de género.
Os dias passados em El Salvador, a convivência e a troca de experiências, serviram para preparar pessoal e profissionalmente, encorajar, motivar e capacitar para enfrentar novos desafios que aparecerão, visto que o modelo hegemónico vive se reproduzindo.
Sem mais conversas, como todo bom viajante (ou não), rabisquei algumas linhas que denominei “Diário de Viagem”. Passo agora a compartilhar com vocês esta série.

El Salvador, 7 de Setembro de 2009, 21:56 hora local

Demorei muito mas aqui estou eu. Desde que cheguei aqui, neste pequeno país que me cobre e me castigo mentalmente para que escreva algo e expresse de alguma forma esses dias inicias nesta experiência. Pois aqui estou. Mesmo assim, a dificuldade permanece, só se passaram três dias desde que cheguei mas a impressão que tenho é que já estou cá a cerca de um mês ou mais.
Aconteceram tantas coisas, risadas, angustias, tristezas, alegrias, reflexões, curiosidades, receios, enfim…uma mescla de sentimentos incrivelmente misturados que nunca havia passado. E ainda faltam 15 dias.
Ao primeiro dia chegado nestas terras, depois de uma viagem longa, cheia de turbulências, sinto-me um estranho “o que é que eu vim fazer aqui? Onde vim parar” (as perguntas típicas que vêm à cabeça quando chegamos num local totalmente desconhecido). Me apresento ao balcão da polícia de fronteira e logo me pergunta: “Cabo Verde, onde fica?” e lá vou eu lhe explicar. Ele com uma cara de assustado, parece que faz para si as mesmas perguntas que eu tinha feito para mim. Esboçando um sorriso, um carimbo de permanência de 20 dias e lá me desejou boa estadia. Logo ao sair da policia de fronteira, uma pequena hostilidade. Agora são dois polícias mal encarados, que logo me mostram que não estão para brincadeiras. Me apontam o crachá de identificação à cara. Mais perguntas. Eles foram mais objectivos e não se ficaram só pelos pensamentos (ao contrário do simpático policia de fronteira). Razões da viagem? Porque de tão longe? Que tipo de evento vou participar? Se pertenço a alguma organização? Folheiam meu passaporte de frente para trás, de trás pr’a frente, repetem as perguntas, uma, duas, três…vezes sem conta! Olhares desconfiados. Revistam a bagagem, a mim e repetem as revistas, as perguntas…
Tento de todas as formas lhes arrancar um sorriso que seja, sem qualquer sucesso.
Bom, lá consegui me livrar dos mal encarados, que pelo menos me ajudaram a arrumar a bagagem. Me desejaram boa sorte e boa estadia. Menos mal.
Ao sair, passo uma vista de olhos nas pessoas que se encontram no aeroporto…e…não nenhuma placazinha a dizer “Ivan Santos” ou “Cabo Verde” ou Equinoccio”. Nada. As perguntas, essas voltam a pairar sobre minha cabeça. Sou o único negro a desembarcar com cara de “gringo” e lógico, cara de totalmente perdido.
Com toda a simpatia do mundo chega um senhor taxista me perguntando algo. Pelos gestos e pelo sentido da frase, entendi que ele me perguntou se alguém viria me buscar. Aceno com a cabeça afirmativamente e timidamente deixo escapar um “sí”.
Muitos esperando, o taxista simpático vendo meu patente desespero, mais uma vez se mostra prestativo e me pergunta se tenho algum endereço, dirección!? Pergunta ele. Telefono!?. Apressado lhe passo o único telefone para contacto que trago comigo. Ele lá tentou fazer a ligação, mas ninguém atendia. Para aumento do meu desespero.
Até que vejo alguém ao longe se aproximando com uma camisa laranja. Minha satisfação era evidente, tanto que podia ver a cor da camisa como uma luz intensa que me incandescia os olhos. Letras grandes que diziam Equinoccio 2008. Naquele momento não importava de que ano era, desde que estivesse escrito Equinoccio. O acolhimento que lhe dou não lhe deixa dúvidas nenhumas sobre quem eu era. Logo me disse: “Iván, estábamos muy preocupados con usted! Perdón se te hay causado algún problema”. Era Dennys Gary.
No caminho para o centro da cidade, surgem as perguntas de praxe: “Como fue a viaje?” “Hablas español?” ” Como es Cabo Verde?” “Tienes hambre (fome)?” etc, etc…
Chegamos a uma pensão, “Casa Clementina”. Muito acolhedora, típica de uma pensão, rústica, simples, agradável, eu diria. Dennys me ajuda a transportar a mala até ao quarto. Sua atenção e prestação para comigo nesses minutos que estivemos juntos é impressionante. Queria me acomodar e fazia de tudo que estava ao seu alcance para que me sentisse em casa. E quando isso aconteceu, parecia que ele tinha tirado um peso das costas e logo me comunica que nos voltaríamos a encontrar no domingo. Era quinta-feira. Fiquei sem chão por segundos. Até domingo??? Mas logo depois disse cá p’ra mim, consigo me virar sozinho até lá, não!? De seguida, durmo o sono dos justos (ou coisa parecida. Apago mesmo.
No dia seguinte acordo e ainda tentando me recompor, alguém bate à porta. Uma voz feminina me diz: “señor Iván, telefono!!!” Era Hector. Tinha me ligado para saber se estava bem e dar as boas vindas. Diz-me que iria passar para me buscar à tarde, para conhecer o Centro Bartolomé de las Casas e aproveitar para conhecer o centro histórico da cidade. Musica para os meus ouvidos. Logo me apresso, tomo um banho, e já estou pronto (ainda faltavam pelo menos cinco horas para o horário combinado). Desço cumprimento a dona da pensão, a senhora Clementina. Simpática me pergunta se descansei bem e me pergunta se quero comer algo. Me prepara um desayuno (pequeno-almoço), com ovos, bacon, pão, café, frutas etc, etc….uma delicia. E assim lhe devoro.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Tolerância Zero

Podia ser qualquer um de nós...então que se faça justiça!!!
Eu diria mais. Que se façam passeatas, buzinões, que gritem, que reclamem, que protestem, contra todo e qualquer tipo de violência!!!

Quase todos os dias nos deparamos nos noticiários com actos deste tipo, violência urbana, violência infantil, violência de género e por aí vai. Podíamos fazer petições todos os dias contra esse flagelo, contra a impunidade.

TOLERÂNCIA ZERO!!!

Assinem aqui:
Família "Pincho" (de Jesus Teixeira) pede Paz e Justiça

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Maratona




De repente é um novo ano. E sempre nos deparamos a fazer retrospectivas, balanços, considerações finais, o que gostaríamos de ter feito, o que não voltaríamos a fazer. Planejamos o novo ano, planificamos, estabelecemos desafios, elegemos prioridades, procuramos oportunidades que não podem ser desperdiçadas, desejamos que tudo corra conforme o estipulado. Começa o ano, devagar, parece um racing, uma corrida, uma maratona. Lento. Todos já conscientes das suas planificações, querem simplesmente cortar a meta, chegar no final e poder dizer, eu consegui. A principio sem muito gás porque estamos no inicio. Temos que guardar o fôlego, controlar a respiração para não desperdiçar. Tudo irá se resolver (leia-se aquecer) lá para o meio do ano. No meio do ano, a primeira apreensão “iiihh o que eu tinha p’ra fazer nos primeiros 3 meses estão atrasados”. E lá começa a correria. Nem vou me aprofundar mais nessa maratona, porque todos já sabemos como acaba. Se não conseguirmos esse ano, p’ro ano tem mais. E assim vai…todo ano novo uma maratona “nova”.

Que venha a Maratona 2010!!!!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Salvem o cine-teatro Éden Park!

Não conheço pessoalmente este "gigante" da cultura cinematográfica de Cabo Verde. Mas das histórias que eu sei, de ouvir falar, tudo leva-me a crer que o edificio não poderia, nem deveria dar lugar a um hotel, por puro capricho...!!!
Um atentado pôr fim a edificios com história, significado e uma importância grandiosa.

Salvem o cine-teatro Éden Park!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Masculinidades...




O que é ser homem? O que representa a masculinidade?
Ser homem é ser forte física e psicologicamente. Ser homem é ser líder, provedor, protector, ou seja não pode dar-se ao luxo de expressar suas emoções. Ser homem é ter responsabilidades, é ser racional, nunca emocional. Temos que ser homens mesmo antes de nascermos, pois é comum escutarmos, quando um casal está à espera de um bebé rapaz, “este aqui vai ser um macho, vai ser forte, vai ter várias namoradas”. Ser homem é aceitar desafios, correr riscos, enfrentar perigos, é competir, mesmo que isso nos cause danos a nível moral e físico. Ser sempre o melhor, nunca fracassar. Ser homem é poder chegar a casa torto de bêbado e ainda contar com a complacência e poder ver nos olhos do pai e da mãe um certo orgulho, “meu filho já é um homem”. Ser é homem é a cada semana ou mesmo a cada dia chegar a casa com um namorada nova, uma mais linda que a outra. Ser homem é “roubar” o carro do pai à noite e sair na noitada e chegar a casa e escutar “isso são coisas de homem, acontece sempre”. Recebe umas palmadinhas nas costas, uma mão na cabeça e quem sabe uns trocos pra ir beber umas com os amigos. É inconcebível para um homem, digo um verdadeiro homem por exemplo chegar aos 18 anos sem ter iniciado a sua vida sexual, é inaceitável chegar aos 18 anos sem saber conduzir um carro, é inadmissível para um homem não saber ou gostar de nenhum desporto, ainda mais se for futebol. Tudo isto para vos dizer que para ser homem simplesmente temos que reproduzir um modelo, um pacote, um kit que já está pronto, só temos que segui-lo, imitá-lo. É normal, é natural. E acreditem ou não, parece fácil mas é das coisas mais difíceis de ser. Porque? Porque constantemente somos “vigiados” se estamos cumprindo com o nosso papel de ser homem. E somos reprimidos socialmente, existem “sanções” se não cumprimos. E assim, temos um factor comum por exemplo nas estatísticas de violência, acidentes de trânsito, mortes por doenças crónicas, dificuldades nos relacionamentos/comportamentos pessoais e profissionais. O homem. Um homem repleto de poderes que se acha no direito de exercer todo e qualquer tipo de violência sobre os quais ele crê serem, seus inferiores.

Portanto, queria com a vossa permissão vos convidar a seguir um outro modelo de homem. Qual? Certamente é essa a pergunta. Aquele que realmente nós queremos ser, aquele que está dentro de nós. Aquele que sabe respeitar o próximo, suas diversidades. Aquele que não tolera e denuncia todo e qualquer tipo de violência. Aquele que tem coragem de pedir ajuda quando porventura fracassa, que sente medo, que chora. Que é racional sim, mas que pode e tem o direito de ser emocional. Que partilha decisões de poder. Aquele que reconhece os erros.
Não estou aqui a propor uma fórmula pronta para ser homem. Não um caminho já traçado para isso. Vamos ter de descobri-la juntos. Como? Começando por ser um homem Laço Branco.

(discurso pronunciado no Lançamento da Campanha Laço Branco Cabo Verde)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pa kê...?




Pa kê ki nu ta odja sol ta nasci?
pa kê ki nu ta obi pasarinhu kanta, águ ta korri na rubera?
pa kê ki nu ta dal banho?
pa kê ki nu ta dal di kumi?
pa kê ki nu ta inxinal anda, mostral kaminhu dretu ku mariadu?
pa kê ki nu ta inxinal kebra rotxa?
pa kê ki nu ta inxinal, ma oras ki é ta kapri é tem ta kai suavi?
pa kê ki nu ta inxinal limia?
si sempri sol ta intristisi,
ta txora,
ta tuntunhi,
ta kamba.

Pseudo-post



Passando em revista pela blogosfera crioula, noto um denominador comum, uma palavrinha muito em voga pelos nossos blogs. Aliás eu nem diria que é uma palavra, mas sim um prefixo. Pseudo.
Temos pseudo-artistas, pseudo-politicos, pseudo-cidadãos, pseudo-intelectuais, pseudo-meliantes, pseudo-não-sei-o-quê, até temos pseudo-blogs, pseudo-etc, etc…
Pseudo significa creio eu, falso. Então, será que estamos cheios de falsidades e não sabemos? Será que o nosso próprio país é uma farsa? Vivemos num país, numa sociedade que só existem perpetuadores da falsidade?
Ou será que a palavrinha, digo prefixo, pseudo é pomposo, fica bem alcunhar algo de pseudo-alguma coisa, que as pessoas usam-na só p’ra ficar bem na fita?

Sobre isso acesse este interessante post,aqui

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

É hoje...


Dia 4 de Dezembro, inicia-se uma campanha por uma causa nobre, na qual tod@s deviam subscrever. Juntos podemos fazer a diferença. A seguir passo a transcrever a Carta Princípios da Rede Laço Branco Cabo Verde.

CARTA PRINCÍPIOS DA REDE LAÇO BRANCO CABO VERDE
HOMENS CONTRA A VIOLÊNCIA DE GÉNERO

Quem somos?

O Laço Branco Cabo Verde é uma rede fundada no dia 10 Julho de 2009, por um grupo de homens das mais variadas áreas de formação e de actuação. É um grupo que se caracteriza pelo forte engajamento na promoção da igualdade de género, pelo que fomenta alianças com outras instituições/organizações da sociedade civil que se posicionam a favor dos direitos humanos e contra a desigualdade de género e a todas suas manifestações, especialmente a Violência Baseada no Género (VBG).

Porque surgimos?

Na sociedade cabo-verdiana prevalecem preconceitos e estereótipos sexistas bastante enraizados. Uma das faces mais visíveis destas representações é os altos índices de violência contra a mulher (22%), que têm como efeito a deterioração de relações nos espaços privados e públicos. Os homens são ao mesmo tempo parte do problema e da solução. Confrontando os homens com atitudes, normas sociais e comportamentos discriminatórios em relação aos papéis de género e à violência contra as mulheres, queremos comprometer os homens nesta luta de identificando e eliminação das praticas sociais injustas em função do género e de pôr fim à todos os tipos violência contra a mulher.

Em que acreditamos?


Que ser homem NÂO é:
- Ter muitas parceiras;
- Usar violência contra mulheres ou homens;
- Aguentar a dor;
- Procriar um grande número de filhos e filhas;
- Exercer o poder sobre outrem;
- Ser heterossexual.
Que ser homem É:
- Saber construir relações baseadas no respeito e igualdade;
- Não tolerar qualquer tipo de violência;
- Ter coragem de pedir ajuda;
- Saber partilhar decisões e poder;
- Saber respeitar a diversidade e os direitos de todas e todos.


O que queremos?

- Difundir e multiplicar a mensagem do Laço Branco Cabo Verde;
- Promover a igualdade e a equidade do género;
- Combater todas as manifestações de violência, nomeadamente a VBG;
- Promover e estimular a assumpção plena dos direitos e deveres próprios da paternidade;
- Apoiar as políticas e iniciativas que fomentem a equidade de género na família, na saúde, na justiça, na educação, na política, na economia e na comunicação social.

Para tal, a rede tem o intuito sensibilizar, envolver e engajar os homens em Cabo Verde e a sociedade civil no geral no combate à violência baseada no Género e a todas as formas de desequilíbrio de género, e na desconstrução duma visão distorcida de masculinidade.

Quais os princípios dos quais não abdicamos?
- Da visibilidade no combate à violência contra a mulher;
- Da denuncia e combate a todos os actos de omissão, infracção, comportamento discriminatório, nomeadamente, machismo/sexismo, exclusão social, homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de comportamentos contra mulheres, homossexuais, bissexuais, transexuais e violação dos direitos resultantes da desigualdade de género;
- Da aliança com as mulheres para alcançar a equidade de género e conquistar direitos, saúde e bem-estar das mulheres e meninas;
- Da assumpção e partilha das responsabilidades que a constituição da família implicam, nomeadamente o cuidado das crianças ou dependentes e as tarefas domésticas
- De praticar uma nova masculinidade que respeita a diversidade sexual e os direitos reprodutivos de mulheres e homens;
- De responsabilizar-nos pelo nosso bem-estar, pela nossa saúde, planeamento familiar e por uma pratica sexual responsável;
- Da identificação e da denúncia das necessidades específicas e experiências de homens e meninos que não são tomadas em conta pelas políticas públicas e práticas profissionais em todas as áreas;
- Da transparência, honestidade, justiça e ética em todas as nossas acções;
- Da colaboração e diálogo com todo o tipo de instituições.

Como podemos ser contactados?
Email: lasubranku_cv@yahoogrupos.com.br
Facebook: http://www.facebook.com/home.php#/group.php?gid=240299560523&ref=ts
Rua Serpa Pinto nº68 CP 253 – Tel: 261 62 71/ 261 51 74 - Fax: 261 52 63

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher




Hoje 25 de Novembro de 2009 assinala-se o Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher. Data de grande importância para todos aqueles que de alguma forma lutam contra este fenómeno que afecta a todos, homens e mulheres.
Agosto de 2009. A secretária de estado norte-americana Hillary Clinton, visita Cabo Verve e elabora uma lista de aspectos positivos e negativos da situação do país, um dos aspectos negativos da lista, foi o índice alto de violência de género (VG).
A violência contra as mulheres, hoje assume-se como um problema social a nível mundial e não obstante os esforços que têm sido feitos em Cabo Verde, os números são preocupantes. Trabalho esse que também foi alvo de rasgados elogios por parte da secretária de estado norte-americana.
Fiquei com a impressão que a questão da violência de género ficou relegada a segundo plano, senti um certo desinteresse, quando se diz que na verdade o país está bem, só tem níveis elevados de VG. Chega a ser mesmo preocupante.
Valéria Pandjiarjian no seu texto “Os Estereótipos de Género nos Processos Judiciais e Violência Contra a Mulher na Legislação”, afirma que no mundo inteiro de cada cinco dias de falta ao trabalho um é resultante de violência doméstica sofrida por mulheres; se uma mulher é vítima de violência doméstica ela perde a cada cinco anos um ano de vida saudável; o estupro e a violência doméstica são causas significativas de incapacidade e morte de mulheres em idade produtiva, activa, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento. A violência contra a mulher implica graves consequências para o desenvolvimento social e económico de um país.
Sendo um problema social, a VG deveria ser tratada como tal, ou seja deveria ser possível quantificar e qualificar suas implicações relacionadas obviamente com a sociedade, politica, economia, cultura, educação e saúde.

Violentar, violar, causar danos, causar sofrimento são termos que, geralmente, podem ser associados à violência. Representa mais do que isso, implica um agressor e uma vítima. Estabelece-se uma relação desigual de poder. Ou seja, a violência consiste em demonstrar, provar, comprovar o poderio do agressor em relação à vítima.
E neste sentido ela pode figurar-se de várias formas, sempre implicando uma desigualdade de poder, por exemplo a violência de género, que ocorre pelo simples facto de existir um género masculino e um género feminino.
A violência de género tem como base a lógica de dominação, de poder, de subordinação. Consiste em dominar todo aquele que é distinto que não se enquadra a essa norma. Essa mesma lógica vem seguindo como um padrão, um exemplo a seguir ao longo da história: o ser humano apodera-se da natureza, os adultos dominam os menores, as raças ditas superiores dominam outras, homens dominam mulheres.
Dessa lógica resulta o modelo patriarcal, que regula de forma desigual as relações de poder entre homens e mulheres em todas as esferas sociais. Como? Através de uma construção sociocultural constituída pretensamente ou “naturalizada”, nas diferenças biológicas entre homens e mulheres. Na sociedade em que vivemos, as relações entre homens e mulheres são socialmente condicionadas, ou até regularizadas, por suas condições económicas, politicas, legais, educativas, sociais, culturais, religiosas. Disto resulta a predominância do género masculino em detrimento do feminino. A relação passa a ser em todos os aspectos da vida pública e privada, assimétrica, disparidade de poder, gerando a violência de género.
A violência de género, justifica na metáfora do patriarcado suas acções, para definir o conjunto de formas de organização social, transpondo sua aplicação familiar. Não é só no seio familiar que o patriarcado está representado, mas sim em todos os níveis: instituições sociais, pensamentos filosóficos, valores éticos, princípios, comportamentos, etc.
Sendo assim, ela produz consequências sociais, quer a nível privado, quer a nível público que geralmente (mas não necessariamente), resulta em aumento da pobreza, baixo aproveitamento escolar, desigualdade de salários, baixas condições de vida etc.
Entretanto a violência de género a nível privado representa outras formas de violência que, digamos são mais visíveis: violência física, abuso sexual, maus tratos, morte. Ocorre maioritariamente em ambientes familiares, nas relações interpessoais, provoca sequelas a todos os níveis, e é mais difícil de combater porque na maioria das vezes a família segue sendo um ambiente “fechado”, no qual “não se mete a colher”.
Existe quer no espaço público quer no privado, uma trama de cumplicidade, tapar o sol com a peneira, face ao fenómeno da violência contra a mulher. Esta situação limita o tratamento de dados quantitativos e qualitativos das implicações relacionadas com a violência.
É fundamental alertar por exemplo sobre o tratamento desigual de género que passa despercebido na nossa sociedade machista e alertar para próprias consequências da VBG. É necessário romper com esta situação, com esta cumplicidade, condescendência social, com este silêncio.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Eu sou Laço Branco



De 6 a 10 de Julho de 2009, um grupo de pessoas motivadas e sensibilizadas com a questão de equidade e género, com forte representação masculina, esteve reunido na Biblioteca Nacional – Praia, Cabo Verde, para a materialização do projecto Laço Branco. Durante cinco dias, os participantes tiveram momentos de puro engajamento e trocas de experiências bastante enriquecedoras. Tudo isto promovido pelo ICIEG (Instituto Caboverdiano para a Igualdade e Equidade de Género) em parceria com a White Ribbon Campaign, com o financiamento do UNIFEM, NEPAD e Cooperação Espanhola. Este projecto tem como objectivo criar e auxiliar o desenvolvimento de uma rede de representantes de instituições e da sociedade civil em geral, engajados no combate à violência baseada no género e na promoção da equidade de género.

A rede pretende agir como difusora e multiplicadora da mensagem Laço Branco contribuindo assim para uma identificação de estratégias de combate à VBG (violência baseada no género) e desta forma transformar o desenvolvimento das relações socio-económicas e politicas no país.
A recém criada rede de homens contra violência de género irá lançar publicamente a Campanha Laço Branco a 4 de Dezembro de 2009. Aguardem.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Corrupção vs Desigualdades Sociais




Chega a ser, no mínimo curioso. No mesmo ano um relatório elaborado pelas Nações Unidas, coloca o Brasil como um dos países lusófonos com maior fosso social. Ou seja, a desigualdade entre ricos e pobres é gritante neste país, segundo o próprio relatório. No entanto, a curiosidade advém do seguinte. Acaba de ser publicado o ranking anual de corrupção elaborado pela Internacional Transparency, e o referido país melhorou cinco posições em relação ao ano passado. Ou seja, o país está menos corrupto.

A taxa de consumo é o critério levado em conta para medir a desigualdade. Pergunta: será que existe alguma co-relação entre o nível de poder de compra e a percepção da corrupção?