terça-feira, 6 de julho de 2010

Quem são...?



35 Anos se passaram da independência de Cabo Verde. Ainda jovem mas, maduro o suficiente para enfrentar os desafios que se avizinham. Para chegar até aqui os contornos foram muitos...começou como uma luta armada, estando vários intervenientes envolvidos, liderados por Amilcar Cabral. Pergunta: quem são esses intervenientes? Por onde andam? O que pensam (pensavam)? Eles (elas) são reconhecidos? As nossas crianças (adolescentes) conhecem quem são os "agentes da liberdade"?

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A primeira de muitas...



Por muito tempo esperei por este momento. Fazer a travessia de barco São Vicente/Sto.Antão, e poder “confirmar” que Sto.Antão não é uma extensão de da ilha do Monte Cara. E mais, poder ver Mindelo de longe, do lado de cá. É deveras memorável.
A viagem foi tranquila, eu diria. Senti-me estonteado, mas não “mariei”. Para não arriscar abdiquei da viagem na parte de cima do navio, que certamente deverá ser inesquecível. Quedei-me na parte interior do bar, no aconchego das poltronas e sempre “vigiado” por uma simpática assistente. Acho que estava escrito na minha testa “passageiro de 1ª viagem, passando mal”. E lutando com uma ansiedade enorme de subir lá em cima e poder desfrutar da brisa marítima.
A estadia foi curta, alias curtíssima. Deu para ver o movimento (algum) por conta da festa de San Jon. Deu pra ver as gentes, os sorrisos, os olhares, conversar com pessoas que têm um sentido de humor incrível. Nada lhes aborrece. Sinto um tanto quanto uma angustia por ficar do lado de cá das montanhas. Parece que estamos numa peça de teatro, onde as montanhas são as cortinas e por trás escondem uma magnitude impressionante, que nos reserva um panorama, um encanto mágico de deixar qualquer um de boca aberta.
Não vou falar de trabalho. Só um pequeno comentário de uma frase que ouvi: “é preciso que os jovens caboverdian@s descubram Cabo Verde”. De facto, temos várias opções de intercâmbio, se quisermos falar do nosso país, se quisermos promover a língua, as artes, a cultura, o turismo, temos que descobrir Cabo Verde.
Final de tarde teve direito a tambor de San Jon na recint, sem faltar um groguinha numa feira de produtos artesenais agro-pecuária.
À noite tocatina, muito animada, muita conversa com gente nova, algumas cervejas, risadas e toca a dormir porque logo mais faço a travessia de volta…
Um gostinho de quero mais...muito mais!!!

Diário de Viagem (III)



El Salvador, 9 de Setembro de 2009 – 08h:09 hora local

Hoje aprendi que uma bebida típica de Honduras é feita de à base de cana-de-açucar, utiliza-se o mesmo processo para se fazer Grogu, mas o mais curioso é nome da bebida, Guaro. Bem semelhante, não!?

Salvador, ou melhor San Salvador é uma cidade tipicamente latina, ou seja contempla tudo o que caracteriza uma cidade latino-americana. Uma multidão nas ruas, nos centros históricos, construções imponentes, igrejas, catedrais com estórias intensamente vividas, praças, monumentos, muito movimento, muito comércio ambulante,etc…
Logo no primeiro dia que saí com Hector (chileno) e Nestor (salvadorenho), que trabalham no Centro Bartolomé de Las Casas, visitei o Palácio Nacional (hoje transformado em museu), a primeira Catedral, a Praça da Liberdade, a igreja matriz, e mais algumas praças e igrejas que já não me recordo os nomes. Cada um dos lugares frequentados fiquei com a forte sensação da existência de uma identidade enorme presente entre os lugares a historia daquela cidade, ou mesmo daquele país. Pairava no ar uma certa fascinação.
O Palácio do Governo, já serviu de “Casa do Governo” ditador, hoje é um enorme museu imponente no centro histórico da cidade, bem em frente a uma também enorme praça, onde as pessoas se encontram, conversam, ao som de uma mistura de musica, sons dos carros, sons dos vendedores ambulantes, etc..
A primeira Catedral, que é por acaso relativamente nova, tem uma história amarga, tocante. Arrisco a dizer que devido à forte presença religiosa, católica por assim dizer, e também devido as guerras nos países latino americanos, todas as igrejas, catedrais têm uma história semelhante.
Nos anos 70, quando começam as primeiras manifestações contra o regime ditatorial, acontece uma passeata pelo centro histórico da cidade. Inicialmente, uma manifestação pacifica, de populares que reivindicavam seus direitos. Quando os manifestantes chegam à Praça da Liberdade (ironia), o exército começa a disparar contra a população indefesa. A população desesperada se refugia na Igreja El Rosario (a Catedral). Conseguem recuperar alguns corpos de pessoas que tinham sido atingidas pelas balas do exército, levando-lhes para dentro da igreja. Aí ficam por algumas horas, sem poder sair, receando o exército que se encontra do lado de fora aguardando a saída dos manifestantes.
Sem saída, tiveram que enterrar seus companheiros (21 pessoas entre mulheres e homens), aí mesmo dentro da igreja. Só vieram a ser descobertos muito tempo depois os cadáveres, mas aí permanecem sepultados até hoje.
A igreja El Rosario, durante anos a igreja passou por várias reformas, primeiro devido a terramotos, segundo para obedecer os preceitos do Vaticano. Uma disposição redonda, com uma abóbada representando desta forma um sentido não-hierárquico, no qual as decisões são tomadas em consenso, em circulo.
Em frente à igreja, a Praça Liberdade, aqui os governos “empossados” faziam sua “apresentação” ao público e depois seguiam para a igreja para uma cerimónia sagrada. Para a benção divina.
Curiosamente, depois do massacre com os populares, nunca mais um governo celebrou qualquer cerimónia quer na praça, quer na igreja.
A Igreja Matriz (a Metropolitana), também tem uma história envolvente e dramática. Oscar Romero é parte integrante desta história. Mas voltarei com mais detalhes.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Homenagem a Quebra-Canela



Essência


Águ,

Águ-l mar.

Ora ku speransa, ora romantiku,

Ora na guerra, ora na paz, ora di luto,

Ora balenti, ora kobardu,

Ora idukadu, ora malkriadu,

Ora harmonioso, ora monótono,

Ora fartu, ora ku fomi…

Ma nunka bu ka ta dexa di ser,

Águ,

Águ-l mar.

Por Ivan Santos

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sensacionalismos



O nosso primeiro-ministro afirma com todas as letras, alto e bom som, que a problemática da onda de violência que o país atravessa, reside no simples facto de a nossa comunicação social ser sensacionalista. Ou seja não passam de meros casos sensacionalistas que passam na TV noticias que servem para vender e que geram avultados lucros às nossas grandes cadeias de televisão, rádio e internet.

Entretanto o Governo reúne-se com instituições públicas e privadas para discutir a violência. O Governo promete reforçar a legislação na matéria e procurar novas formas de contornar a situação.

Alguns dias depois, o Ministério de Segurança Interna, anuncia novas medidas para combate à violência e criminalidade. As medidas passam desde o reforço e capacitação da Policia Nacional, como por exemplo: 118 novos efectivos, reforço de meios para o combate à proliferação de armas ligeiras, instalação de scanners móveis e fixos para a fiscalização e controlo de armas nos portos e aeroportos (entre outras); assim como medidas operacionais, adopção de um Plano Operacional Nacional, Planos Especiais para os Comandos Regionais, etc, etc…

Hoje, anuncia-se que a Policia Militar volta às ruas, com o objectivo de colaborar no Plano de Combate à violência e criminalidade.

Perguntas: Tudo isto é porque a nossa imprensa é sensacionalista? Tudo isto é porque o estado actual da problemática da violência está pior do que pensávamos? Ou ainda, tudo isto é porque estamos a um ano das eleições e o governo quer mostrar que cumpriu no seu dever?

Homenagem às mulheres



Mulheres e flores do campo


Mulheres
São quais flores do campo
Que solitárias embelezam o prado
Enquanto são pisoteadas pelos insensatos.

As flores do campo trazem uma beleza sem par
Indecifráveis são suas essências
E as mulheres incompreendidas
Em suas ricas consistências.

Mulheres e flores do campo
Estão além da compreensão
Do gênero homem, preocupado, aprisionado
No poder econômico e de mando.


As flores do campo por mais que as arranquem;
As pisoteiam, sempre voltam a florescer
Suas raízes são profundas
E suas sementes fecundas.

Nas mulheres,
Fecunda é a sabedoria;
Profundos são seus sentimentos;
Por isso, com mulher não se brinca.

Mulher, se ama
Mulher deve ser adorada e respeitada
Pois nela há o indecifrável
Dom do amor e da vida.


Por Davi Roballlo

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sodade


Acabo de assistir a um filme-documentário intitulado “São Tomé, Os Últimos Contratados”, produção e realização de Leão Lopes.
Confesso que não sabia nem da existência do documentário. Através de minhas visitas diárias pela blogosfera cabo-verdiana soube pelo blog Caboverdiano que o mesmo iria se estrear hoje (19/02) e no dia 26/02 em São Vicente.

Despertou logo minha curiosidade porque nunca tinha sequer ouvido falar de um trabalho, de uma produção que retratasse esse capítulo da nossa história, aliás dos dois países.
Estudei no Brasil cinco anos e todo esse tempo compartilhei vivências e momentos com colegas santomenses, “os santolas”. Todos alegres, amantes da vida, nunca estavam tristes. Até para contar histórias tristes das quais lhes eram passadas por seus familiares descendentes, sobre a viagem para São Tomé, o trabalho na roça, a vontade de pelo menos rever os entes queridos que teriam ficado para trás, as promessas de retorno, enfim.

Sobre o documentário, o próprio Leão Lopes no final disse “está tudo dito”.
Emotivo, triste, de dar arrepios. Foi hilariante a cena das batucadeiras. Presença viva da cultura cabo-verdiana. O próprio não conseguiu conter a emoção.
Durante o filme parecia que estava numa sala de mórbidos escutando as vozes de lamentação sussurrando todo o sofrimento que haviam passado.
Alguém disse, falar da história dos contratados, da emigração cabo-verdiana para São Tomé e Príncipe é talvez falar do capítulo mais triste, mais mórbido da história de Cabo Verde.

Hoje existem cerca de 34530 cabo-verdianos ou descendentes de cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe um país de 160.000 habitantes.
Pelo documentário também fica-se com a impressão que os cabo-verdianos ou os descendentes já não almejam tanto o retorno á sua terra natal. Querem antes de mais uma vida digna, uma vida de reconhecimento pelo que já passaram, sentem-se também santomenses e querem contribuir de alguma forma para o desenvolvimento económico-social do país. Não querem ajudas para voltar, querem ajudas para que possam construir uma vida, para que seus filhos tenham oportunidades de estudar, de trabalhar, ter acesso à saúde, segurança e não sejam eternos sobreviventes.

Só me resta dizer obrigado ao Leão Lopes pela grandiosidade do documentário e ao CaboVerdiano pela dica.

Diário de Viagem (II)



El Salvador, 8 de Setembro de 2009 – 21:03 hora local

Depois de um dia cheio de actividades, jogos e reflexões pessoais, estamos neste momento numa Tertulia (uma roda de conversa). A convidada de hoje é Deyse Cheyene da IMU (Instituto de las Mujeres). Uma salvadorenha ex-combatente da guerra civil nacional dos anos 80. Veio nos transmitir um pouco de sua experiência como defensora dos direitos humanos no geral e em particular das mulheres, em diferentes perspectivas e contextos. Pré golpe de estado, durante a guerra civil, pós-guerra civil, ditadura e democratização. Também irá nos fazer um balanço dos 100 dias do Novo Governo. Vamos isso? Diz ela:
“Durante a guerra civil, a ditadura, o papel dos movimentos são vistos de alguma forma como aliados. Alias fortes aliados. Todos lutam por um objectivo. O movimento feminista não fica atrás neste intuito. É hora de unir forças e combater uma ditadura fascista. Contudo o que acontece ao alcançar o objectivo final é o que acontece quase sempre em lutas revolucionárias: os movimentos sociais, todos sem excepção são simplesmente esquecidos. Me deparo aqui por minutos, tentando encontrar uma explicação para tal, mas não tenho sucesso. A única que me vem à cabeça é esta: simplesmente esquecidos.
O movimento feminista de repente, se vê (particularmente), sem rumo, sem direcção, sem uma bússola. E agora!!?? A participação na guerra considerada notória não é reconhecida. O sentimento é de que depois de 12 anos de luta, combateram por direitos de outrem e não do conjunto ou quiçá de si próprios.
Daí a luta que terminara teria que recomeçar, agora procurando seus próprios direitos e sair do plano secundário (nem isso), plano de esquecimento.
O fim da guerra sempre vem acompanhado de, digamos, vantagens e desvantagens. Prós e Contras. Esperança, liberdade, receio, angustia, etc. Uma mescla de sentimentos.
El Salvador passa a ser governado por uma ideologia de ultra-direita, burguesia emergente. Na linha do que está acontecendo no mundo na época (década de 90), o governo exerce uma politica neoliberal forte, com direito a “apadrinhagem” do Banco Mundial. Considera esta instituição que o exemplo de El Salvador devia ser seguido por todos os países da América Latina.
Nisto, como a própria história mostrou, Salvador atinge índices de pobreza extremamente baixos, níveis preocupantes de discriminação social, aumento do narcotráfico, aumento da violência, chegando a ser uma das cidades mais violentas da América Central, abandono escolar, prostituição. Todos esses índices têm maior incidência sobre as mulheres do que nos homens.”

A situação melhorou bastante, consideravelmente, considera Deyse. Tudo fruto de um trabalho implementado de forma estratégica e organizada. Sessões de auto-estima, de mudança de paradigma entre outros, contribuíram para tal.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Suchitoto, El Salvador (I)





Suchitoto é um município situado a oeste de San Salvador, sua extensão territorial é de 329,2 km2, sua altitude sobre o nível do mar é de 388m.
Concentra 28 cantões e 77 comunidades, a população urbana é de 7.000 e a rural de 20.000. É um município com muita identidade marcada pela memória de guerra civil ocorrida nos anos 80. Durante o conflito armado quase se transformou numa cidade-fantasma, devido aos bombardeamentos do exército que dizimaram muitos civis.
Depois dos acordos de paz, o município implementou acções com a vista à reconstrução, principalmente em infra-estruturas sociais básicas.
Conta com um Plano de Ordenamento Territorial, um Plano de Turismo, Conservação e Restauração da cidade e um Plano de Tratamento Integral de Esgotos.
O esforço e consequentemente o êxito do município resultam de uma provisão e visão clara da participação activa da população local. As principais actividades económicas do município: agropecuária, turismo, pesca artesanal, comércio.


Fotos: Ivan Santos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


"A Liberdade de Imprensa sobrepõe-se ao Segredo de Justiça"

(um jornalista da nossa praça)

Comentário: O que acham!?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Brasil rumo ao Hexa (?)



Em ano de Copa do Mundo de Futebol, o presidente brasileiro Lula da Silva juntamente com a Associação dos Campeões Mundiais do Brasil, negociaram “presentear” jogadores que estiveram nas cinco conquistas brasileiras de campeão mundial. A saber: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. O valor pode chegar aos 465 mil reais.
Boa iniciativa até para garantir a aposentadoria de alguns jogadores. Mas de qualquer forma fica a pergunta, ou melhor algumas perguntas.

E os praticantes de outros desportos, não merecem tal “prémio”? E porque esta iniciativa surge em ano de Copa? Onde vai sair o dinheiro para tal? Dos cofres públicos?

Homenagem a Haiti

Para Didier Dominique e o povo do Haiti, e para meu pai, Roland Klueger, que faria 88 anos hoje.


Era uma vez um rei e um menino. Fico pensando se há alguma palavra que signifique, ao mesmo tempo, exaustão, terror, desespero e desesperança, tudo isto somado e elevado a décima potência, mas não encontro tal palavra. Só que era bem assim que estava o menino: tinha dois anos, encolhia-se de olhos catatônicos no vazio de uma calçada logo depois do terremoto do Haiti, e apareceu na televisão. Eram tantos em desespero em torno dele, eram tantos... Eram tantos os mortos em torno dele, eram tantos... Quem conseguiria prestar atenção em mais aquele menino dentro de tanta desgraça, a não ser aquele olho malicioso de uma televisão, que pegou o menino e o jogou no meu colo, sem que eu so ubesse o que fazer com ele?

Era uma vez um rei e um menino. O rei era pura saúde, garbo e fidalguia: vestido com trajes tribais, tinha no rosto e no corpo os mesmo desenhos em branco, preto e vermelho que também estavam no escudo de couro que segurava na mão esquerda, pois na direita segurava a lança segura e certeira que o tornara rei tamanha a sua perícia ao caçar o leão. Ele era grande e espadaúdo, mas maior ainda era a sua fama, pois não só ao leão enfrentava: quando seu povo tinha fome, ele afrontava até os grandes elefantes, e todos viviam felizes no seu reino, bem alimentados e saudáveis, e o rei era feliz também.

Certo do poder da sua felicidade e da sua lança, o rei nunca entendeu como lhe caíra em cima aquela rede que o despojara do seu escudo, da sua lança, da sua força e da sua liberdade – como tantos outros da sua terra, teve que se curvar à chibata do traficante, aceitar a gargantilha e as algemas de ferro, resistir à longa caminhada da coleante corrente feita de gente e de ferros, viver a aviltância do navio negreiro.

A saúde antiga deu-lhe forças para chegar vivo àquela terra de degredo, de escravidão, e cruéis homens brancos de outra fala, à força de chicote, subjugaram-no e ele teve que se curvar, sem lança, sem pintura, sem escudo, e cultivar a cana que produzia o açúcar, o rum e a riqueza daqueles usurpadores da sua liberdade. Nunca mais ele foi feliz; nunca mais soube do seu povo e seu povo nunca mais soube dele, e só o que havia de belo era o mar daquela terra, todo verde, azul e transparente. Houve, também, uma mulher que reconheceu nele a fidalguia conspurcada, e antes de morrer prematuramente, o rei teve um filho, negro e lindo como ele, e que na verdade era um príncipe – mas foi um príncipe que nunca teve uma lança e que não conheceu os desenhos e as cores tribais – ao invés de leões, só houve para ele o látego do algoz.

Outros príncipes foram gerados na descendência do rei, naquela terra que parecia incrustada num mar de turmalinas, e todos tiveram a vida miserável de escravo, enquanto seus senhores tinham as vidas nababescas dos poderosos.

Um dia, já não dava mais de suportar. Eles eram mais de 500.000 negros, e os senhores eram 32.000, certos que a força do látego manteria aquela situação indefinidamente. E junto com os demais escravos os descendentes do rei lutaram e lutaram e venceram – desde 1791 a 1803 – nesse último ano venceram até o exército que Napoleão Bonaparte mandara da França. E conquistaram a liberdade!

O Haiti foi o primeiro país da América dita Latina a ser livre, a fazer a independência, isto lá em 1804, antes de todos os demais. É de se imaginar o frio que correu na espinha de tantos outros colonizadores brancos: uma república, e de negros? E se a coisa pega? Olha que escravo está tudo cheio por esta América de meu Deus! Que se faz, ai ai ai?

De modo geral, o que se podia fazer eram independências rápidas, feitas por brancos (e elas aconteceram uma depois da outra) e muita matança de negros, para evitar que a coisa trágica se repetisse e sujasse o bom nome da dita civilização européia! Sei bem como foi tal matança no Brasil: foi na guerra do Paraguai, foi na revolução Farroupilha... – não estou inteirada de como foi nos outros países, mas que a matança foi grande, lá isso foi. E a “civilização” branca quase pode respirar, aliviada – só que havia aquele pequeno país, aquele maldito pequeno país lá incrustado naquele mar de ametista, o tal do Haiti, que era um país de negros – e nunca que a tal “civilização” branca poderia deixar aquilo là ¡ florescer de verdade – era afronta demasiada.

E nos dois últimos séculos o Haiti sofreu tudo o que é possível sofrer-se para que sua crista se quebrasse: invasões, ditaduras, golpes de Estado, o bedelho dos brancos sempre indo lá e tentando botar tudo a perder, mas a valentia daquele povo parecia indomável, e o Haiti, mesmo não conseguindo florescer como deveria, era exportador de café, de arroz, era o maior produtor de açúcar do mundo, era um país que tinha seus filhos bem alimentados a arroz, a banana, os porcos abundavam e produziam pratos deliciosos, acompanhados de banana frita, iguaria tão caribenha...

Foi agora, agorinha, no tempo da violência do neoliberalismo, o que nos leva a 1980, que o complô dos brancos resolveu que já não dava mais, que era muito absurdo em plena América ver um país de negros sobrevivendo e sobrevivendo impunemente... Então foi programada a tomada definitiva do Haiti. Foi daquelas coisas mais malévolas que as mentes doentias podem programar visando lucro: aos poucos, introduziram-se as pragas necessárias na ilha incrustada num mar de safira, e morreram todos os porcos, e depois todo o arroz, e depois toda a banana, e depois veio a praga do café.. . Aqueles negros corajosos não sobreviveriam, ah! La isso não poderia acontecer! Viveriam apenas para voltar à condição de escravos, e igualzinho como os europeus, em 1885, no Tratado de Berlim, dividiram o mapa da África à régua, causando as milhares de desgraças que estão acontecendo até hoje, os brancos do neoliberalismo pegaram o território do Haiti e o dividiram em 18 futuras zonas francas onde não haveria lei, onde o Capital imperaria, e onde, as pessoas tão famintas que estavam assando biscoitos de argila para poderem ter algo no estômago trabalhariam, de novo, em regime de escravidão. Pode parecer que tal coisa é distante de nós, mas não é. O próprio vice-presidente do Brasil, José Alencar, é alguém tão interessado no assunto que até mandou seu filho para lá para cuidar dos seus futuros interesses imperialistas. E o execrável outro dia ainda saiu do hospital, depois de mais algumas cirurgias, sorrindo para as câmaras das televisões e declarando que poderia perder tudo na vida, menos a honra. Que honra pode ter um homem assim?

(Não consigo me furtar de contar de que forma a nefanda honra do vice-presidente atingiu diretamente minha família, recentemente. Numa só tarde, uma das empresas dele, aqui na minha cidade de Blumenau/SC/Brasil, a Coteminas, demitiu 600 empregados, assim sem mais nem menos. Três primos meus, lutadores pais de famílias, perderam o emprego sem entenderem muito bem por quê – o porquê é fácil: nas novas fábricas que o “honrado” vice-presidente anda montando lá nas zonas francas do Haiti, os novos empregados trabalharão pela décima parte do salário que os meus primos ganhavam – e o salário dos meus primos já não era grande coisa.)

Bem, então tínhamos um Haiti em petição de miséria, e daí veio o terremoto. Que poderia ter acontecido de melhor para o Capitalismo e o Imperialismo dos EUA? Até o palácio presidencial do governo títere ruiu – daqui para a frente é apenas tomar posse – já não há barreiras. Ao invés de ajuda humanitária (que eles não deram nem aos flagelados do furacão Katrina, em seu próprio território) os Estados Unidos estão, descaradamente, diante de todo o mundo, fazendo a ocupação militar do Haiti com o seu exército, e tudo parece bonitinho, com a Hilary indo lá para ver como é que estão ajudando... ajudando uma ova! Alguém já viu os Estados Unidos ajudar alguém de verdade?

Não deixo de louvar as tantas e tantas equipes de tantos e tantos países que lá estão, realmente levando ajuda humanitária para aquele povo quase que nas vascas da agonia – mas a semvergonhice do Capital está lá, também, sorrindo de felicidade com sua cara de caveira.

E então o olho de uma televisão espia lá aquele menino de dois anos arrasado pela exaustão, pelo terror e pelo desespero, encolhido num vazio de uma calçada, e o joga brutalmente no meu colo – e quando tento acalmá-lo acolhendo-o junto do meu coração, ele me conta do rei, seu antepassado – aquele menino moído pelo Capital e pelo terremoto é nada mais nada menos que um príncipe, e seu antepassado que foi rei e livre caçava leões e elefantes e alimentava um povo – o menino sabia, a família sempre contara adiante o seu segredo.

Céus, céus, o que fizeram com as gentes livres da África, que quiseram apenas continuar vivendo com dignidade naquela ilha de onde já não podiam sair? Quem vai cuidar daquele menino antes que ele retorne à condição de escravo de onde seus antepassados tanto tentaram sair?

Eu choro, Haiti, choro por ti, e por teu menino, e por aquele rei. Não sei fazer outra coisa além de chorar.


Blumenau, 17 de janeiro de 2010.

Urda Alice Klueger (Escritora e historiadora)


Cometário: um minuto de silêncio em memória às vitimas

Recebido via email

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Diário de Viagem (I)


Setembro de 2009 fiz uma viagem a El Salvador, América Central, para participar numa formação "Escuela Metodologica de Masculinidades" Equinnocio 2009.
O programa tem por interesse abordar homens que, pela sua posição e poder organizacional, são tidos como agentes-culturais na formulação de políticas, na mudança de práticas e atitudes e na realização de projectos, com vista atingir a equidade de género e a prevenção da violência. Pretende assim, gerar modificações nas práticas quotidianas de homens-líderes de comunidades, organizações não-governamentais e entidades estatais.
Toda a metodologia, todo o processo em si, gira em torno de uma lógica quotidiana, vivencial, pessoal. A metodologia passa sim por um conceito racional, mas este terá de ser acompanhado, terá de caminhar juntamente com o conceito espiritual. Constituiu um momento para a mudança pessoal, para uma nova abordagem pessoal, para em seguida contribuir para um ganho profissional. Ou seja, a partir desta experiência conseguimos identificar, reconhecer marcas do modelo hegemónico presentes em nós. Isto já é um grande avanço na luta, na promoção da igualdade de género.
Os dias passados em El Salvador, a convivência e a troca de experiências, serviram para preparar pessoal e profissionalmente, encorajar, motivar e capacitar para enfrentar novos desafios que aparecerão, visto que o modelo hegemónico vive se reproduzindo.
Sem mais conversas, como todo bom viajante (ou não), rabisquei algumas linhas que denominei “Diário de Viagem”. Passo agora a compartilhar com vocês esta série.

El Salvador, 7 de Setembro de 2009, 21:56 hora local

Demorei muito mas aqui estou eu. Desde que cheguei aqui, neste pequeno país que me cobre e me castigo mentalmente para que escreva algo e expresse de alguma forma esses dias inicias nesta experiência. Pois aqui estou. Mesmo assim, a dificuldade permanece, só se passaram três dias desde que cheguei mas a impressão que tenho é que já estou cá a cerca de um mês ou mais.
Aconteceram tantas coisas, risadas, angustias, tristezas, alegrias, reflexões, curiosidades, receios, enfim…uma mescla de sentimentos incrivelmente misturados que nunca havia passado. E ainda faltam 15 dias.
Ao primeiro dia chegado nestas terras, depois de uma viagem longa, cheia de turbulências, sinto-me um estranho “o que é que eu vim fazer aqui? Onde vim parar” (as perguntas típicas que vêm à cabeça quando chegamos num local totalmente desconhecido). Me apresento ao balcão da polícia de fronteira e logo me pergunta: “Cabo Verde, onde fica?” e lá vou eu lhe explicar. Ele com uma cara de assustado, parece que faz para si as mesmas perguntas que eu tinha feito para mim. Esboçando um sorriso, um carimbo de permanência de 20 dias e lá me desejou boa estadia. Logo ao sair da policia de fronteira, uma pequena hostilidade. Agora são dois polícias mal encarados, que logo me mostram que não estão para brincadeiras. Me apontam o crachá de identificação à cara. Mais perguntas. Eles foram mais objectivos e não se ficaram só pelos pensamentos (ao contrário do simpático policia de fronteira). Razões da viagem? Porque de tão longe? Que tipo de evento vou participar? Se pertenço a alguma organização? Folheiam meu passaporte de frente para trás, de trás pr’a frente, repetem as perguntas, uma, duas, três…vezes sem conta! Olhares desconfiados. Revistam a bagagem, a mim e repetem as revistas, as perguntas…
Tento de todas as formas lhes arrancar um sorriso que seja, sem qualquer sucesso.
Bom, lá consegui me livrar dos mal encarados, que pelo menos me ajudaram a arrumar a bagagem. Me desejaram boa sorte e boa estadia. Menos mal.
Ao sair, passo uma vista de olhos nas pessoas que se encontram no aeroporto…e…não nenhuma placazinha a dizer “Ivan Santos” ou “Cabo Verde” ou Equinoccio”. Nada. As perguntas, essas voltam a pairar sobre minha cabeça. Sou o único negro a desembarcar com cara de “gringo” e lógico, cara de totalmente perdido.
Com toda a simpatia do mundo chega um senhor taxista me perguntando algo. Pelos gestos e pelo sentido da frase, entendi que ele me perguntou se alguém viria me buscar. Aceno com a cabeça afirmativamente e timidamente deixo escapar um “sí”.
Muitos esperando, o taxista simpático vendo meu patente desespero, mais uma vez se mostra prestativo e me pergunta se tenho algum endereço, dirección!? Pergunta ele. Telefono!?. Apressado lhe passo o único telefone para contacto que trago comigo. Ele lá tentou fazer a ligação, mas ninguém atendia. Para aumento do meu desespero.
Até que vejo alguém ao longe se aproximando com uma camisa laranja. Minha satisfação era evidente, tanto que podia ver a cor da camisa como uma luz intensa que me incandescia os olhos. Letras grandes que diziam Equinoccio 2008. Naquele momento não importava de que ano era, desde que estivesse escrito Equinoccio. O acolhimento que lhe dou não lhe deixa dúvidas nenhumas sobre quem eu era. Logo me disse: “Iván, estábamos muy preocupados con usted! Perdón se te hay causado algún problema”. Era Dennys Gary.
No caminho para o centro da cidade, surgem as perguntas de praxe: “Como fue a viaje?” “Hablas español?” ” Como es Cabo Verde?” “Tienes hambre (fome)?” etc, etc…
Chegamos a uma pensão, “Casa Clementina”. Muito acolhedora, típica de uma pensão, rústica, simples, agradável, eu diria. Dennys me ajuda a transportar a mala até ao quarto. Sua atenção e prestação para comigo nesses minutos que estivemos juntos é impressionante. Queria me acomodar e fazia de tudo que estava ao seu alcance para que me sentisse em casa. E quando isso aconteceu, parecia que ele tinha tirado um peso das costas e logo me comunica que nos voltaríamos a encontrar no domingo. Era quinta-feira. Fiquei sem chão por segundos. Até domingo??? Mas logo depois disse cá p’ra mim, consigo me virar sozinho até lá, não!? De seguida, durmo o sono dos justos (ou coisa parecida. Apago mesmo.
No dia seguinte acordo e ainda tentando me recompor, alguém bate à porta. Uma voz feminina me diz: “señor Iván, telefono!!!” Era Hector. Tinha me ligado para saber se estava bem e dar as boas vindas. Diz-me que iria passar para me buscar à tarde, para conhecer o Centro Bartolomé de las Casas e aproveitar para conhecer o centro histórico da cidade. Musica para os meus ouvidos. Logo me apresso, tomo um banho, e já estou pronto (ainda faltavam pelo menos cinco horas para o horário combinado). Desço cumprimento a dona da pensão, a senhora Clementina. Simpática me pergunta se descansei bem e me pergunta se quero comer algo. Me prepara um desayuno (pequeno-almoço), com ovos, bacon, pão, café, frutas etc, etc….uma delicia. E assim lhe devoro.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Tolerância Zero

Podia ser qualquer um de nós...então que se faça justiça!!!
Eu diria mais. Que se façam passeatas, buzinões, que gritem, que reclamem, que protestem, contra todo e qualquer tipo de violência!!!

Quase todos os dias nos deparamos nos noticiários com actos deste tipo, violência urbana, violência infantil, violência de género e por aí vai. Podíamos fazer petições todos os dias contra esse flagelo, contra a impunidade.

TOLERÂNCIA ZERO!!!

Assinem aqui:
Família "Pincho" (de Jesus Teixeira) pede Paz e Justiça